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Ódiokut :: Quando uma rede social é usada para propagar a violência

Assim como o papai adotivo Google, o pequeno Orkut também sofre do transtorno de dupla personalidade. Sim, você pode se conectar a amigos, conhecer novas pessoas, trocar idéias em comunidades. E, sim, também é possível criar um perfil falso e propagar o ódio contra qualquer coisa ou qualquer grupo de pessoas - sem, digamos, correr muitos riscos de ser penalizado pela justiça.

Eu sempre soube que havia esses grupos violentos no Orkut. Mas notei mais profundamente a gravidade disso há pouco tempo, depois de ler o post "Donos de mulheres S.A." no blog Escreva Lola Escreva (muito bom, por sinal). O texto comenta algumas manifestações chocantes, postadas no Orkut, em favor de Lindemberg Alves, que seqüestrou a matou a ex-namorada Eloá em Santo André (SP). O tópico "quem sou eu" do perfil do criminoso, agora "administrado" pelo primo, é de embrulhar o estômago. E não menos aversivas são as comunidades que tentam justificar o crime com base em argumentos machistas e misóginos.

Sem palavras. É de uma violência sem tamanho, dirigida explicitamente a Eloá, mas que atinge a todas as mulheres. São comunidades que chegam a congregar milhares de pessoas, embora boa parte delas esteja lá para discordar dos criadores e defensores do grupo.

Muitos dizem denunciar essas comunidades no próprio Orkut. Mas elas continuam lá, pregando covardemente o ódio e a violência contra mulheres, nordestinos, negros, homossexuais. Deletá-las seria atentar contra a liberdade de expressão? É uma questão complexa, mas acho que cair num relativismo sem limites é perigoso demais. Deletá-las ajudaria a combater o preconceito que está por trás dessas manifestações? Sinceramente, não sei.

Fica a tristeza e a revolta.



Fiz uma busca no Google Scholar por artigos acadêmicos sobre o Orkut. Encontrei um muito interessante: A auto-regulação interna do Orkut pelos usuários (pdf), de Flávia Ataide Pithan e Maria Isabel Timm, publicado na revista Interin, da Universidade Tuiuti do Paraná. Um pequeno trecho:

"Devido à falta desse controle severo, muitas comunidades que não deveriam existir segundo as regras definidas pelo site podem ser encontradas. Apresentam conteúdo racista, neonazista e terrorista, como já citado anteriormente. Apóiam o crime, a contravenção, o uso de drogas e a barbárie. O controle destas comunidades, que idealmente deveria ser realizado pelo criador do site ou uma equipe destinada para isto, muitas vezes tem sido executado pelos próprios membros da rede, os quais se unem para eliminar usuários que abusam da liberdade proporcionada pelos motivos já citados. Apesar disso, as comunidades censuradas encontram meios de despistar a repressão utilizando nomes mascarados. Quando são excluídas da rede, voltam com novo nome e seguem apoiando e divulgando as mesmas idéias anteriores."

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