Spiga

MINI-CLIPPING
Ano novo :: Listas, resoluções e retrospectivas

Um apanhado do que saiu por aí (=internet) sobre jornalismo e mídia, no mais tradicional espírito de "adeus, ano velho; feliz ano novo":


Online Journalism Blog

O jornalista Paul Bradshaw faz suas previsões. Segundo ele, 2009 não será o ano da internet móvel, nem da Web semântica. Em compensação, será o ano de maior vulnerabilidade do gigante Google. E outras coisinhas mais.


Telegraph.co.uk :: Technology - Blog de Shane Richmond

Sim, um tradicional post de auto-referência. Mas... Destaque para a matéria número um da lista: The 101 most useful websites. Entrego o [abre ironia] surpreendente [fecha ironia] primeiro lugar: Google. Nem vou linkar.

Outros textos com espírito de ano novo no mesmo blog: Five social media New Year's resolution for your business (por Robin Grant), Social media to-do list 2009 (por Ilana Fox) e Three wishes for social media in 2009 (por Paul Bradshaw).


Mastering Multimedia

Destaca, entre outras coisas, as reformulações gráficas de sites noticiosos e a "maturidade" atingida por vídeos e slideshows jornalísticos online.


Comment is free :: guardian.co.uk

Tim Luckhurst sugere a todos os que acreditam na liberdade de expressão e de publicação que, em 2009, comprem um jornal de circulação nacional todos os dias. Sim, melhoraria o mercado de trabalho para os jornalistas.

Tomo a liberdade de fazer também minha sugestão: estudantes de jornalismo e jornalistas, comprem revistas e jornais. E dêem muitos cliques para os portais. Acho que se todos fizéssemos isso, não seríamos tantos desempregados. Nós produzimos, nós mesmos consumimos.



Centerpieces :: Poynter Online
Regina McCombs lista várias matérias online que fizeram um bom uso dos recursos multimídia.


Rádio Cooperativa do Chile
O site tem um visual interessante e bons recursos. Lista os principais acontecimentos do ano, com imagens e links para arquivos de texto e áudio.






Aos que passarem por aqui nos próximos dias, 
um feliz ano novo. E aos que não passarem, 
também.

Flávia

RETROSPECTIVA 2008
Os dez fatos mais marcantes na mídia online

O jornalista Mark Glaser publicou no blog MediaShift uma lista dos dez acontecimentos (ou fatos, ou ocorrências, ou narrativas) que mais marcaram a comunicação via Web em 2008. Os tópicos e sua importância foram definidos em votação feita entre os leitores do blog.

São acontecimentos e temas relacionados principalmente à Web e ao mercado norte-americanos. Portanto, não valem totalmente para o Brasil. Mas como as coisas que acontecem no norte tendem a escorrer até o sul com o tempo, a lista talvez antecipe algumas das coisas que estão por vir nestas bandas de cá.

A lista do MediaShift:

1. O uso que Obama fez da internet em sua campanha.


2. Crise dos jornais impressos, com debandada de leitores para o meio online.

3. O Twitter se torna uma importante fonte de notícias.

In 2007, Twitter gained notice beyond being a casual micro-blogging tool during the bridge collapse in Minneapolis and the Southern California wildfires. In 2008, Twitter became a "first-responder" platform to hear about an earthquake in China and the terrorist attacks in Mumbai. While it's difficult to report a story on Twitter, it's easy to get a quick text note out to the "Twittersphere," which then could get picked up by journalists, who are now using the platform even more.


4. A recessão se acelera e afeta o mundo da mídia.

So just how has the recession brought about a media shift? In advertising, traditional media has suffered mightily from the downturn, while many online ad types -- including paid search, dominated by Google -- have been spared so far. Zenith Optimedia, for instance, predicted that online advertising worldwide would be up 18% next year, even as overall U.S. advertising is predicted to drop 6.2%. Still, Internet startups trying to depend on advertising alone are having a tough time getting funding.

5. O jornalista John Marshall ganha o prêmio Polk de jornalismo investigativo por uma matéria publicada na internet. Pulitzer estende premiação para reportagens online.

6. O iPhone 3G e o crescimento do uso de internet móvel.

7. Yahoo entra em crise e flerta com Microsoft e Google.

8. A audiência da televisão continua a se fragmentar.

9. Sites de checagem se tornam indispensáveis durante a eleição americana.

Most journalists would report in the "he said/she said" style without saying an ad was blatantly false or not. That left an opening for sites like FactCheck.org and PolitiFact to jump in and offer non-partisan fact-checking on political speech.

10. Experimentações com modelos não-lucrativos no jornalismo online.

FOTOGRAFIA
A menina de vestido branco


Vi, na quinta passada, a fotografia premiada como melhor do ano pelo Fundo das Nações Unidas pela Infância (Unicef). A imagem, de autoria da belga Alice Smeets, mostra uma menina em uma favela em Porto Príncipe, no Haiti. Pensei em postar algo aqui, mas achei que não "caberia" no espírito do blog - mais direto, pragmático e neutro, segundo minhas ilusões de autora.

Mas, dias depois, com a lembrança da imagem ainda na cabeça, decido postá-la e comentar que há muito mais nela do que pobreza, dois porcos e uma garota de vestido branco. Porque é isso o que vemos: a contradição do ambiente com a roupa da menina, talvez de festa. E festa lembra alegria, que não combina com pobreza, certo?

As coisas não são bem assim. Talvez tudo o que a menina esteja vendo é seu vestido e a ocasião para a qual ela o veste - uma festa de aniversário, um casamento, um feriado, uma brincadeira ou a mera vontade de vesti-lo.

Ela provavelmente não vê o ambiente em que está como nós o vemos, triste e inabitável. Nossa narrativa, de espectadores fora da situação, tende a colocar a pobreza em primeiro plano. Na dela, de participante, é a ocasião do vestido branco que está em destaque.

Mas, de novo, eu estou de fora, e tudo isso é uma hipótese.

Faz sentido?

FUTURO DA PROFISSÃO
Dez coisas que um jornalista pode ser quando crescer

Dizem por aí que os jornalistas estão com os dias contados, que os blogs e o jornalismo cidadão/colaborativo/não-profissional vão dominar o mundo. Então, jornalistas, seus seres defasados, inventem outras coisas para fazer!

Já pensei em usar o diploma para prestar concurso público e virar motorista de metrô ou fiscal de reservas ambientais. Mas esta lista, criada pelo blog sueco Mindpark e traduzida para o inglês pelo blog Beta Tales, apresenta funções muito mais condizentes com o que um jornalista pode fazer, utilizando seus conhecimentos (?) de internet, novas tecnologias, redes sociais, medição de audiência...

Em tradução rápida para a língua de Saramago, num futuro não tão distante os jornalistas podem ser: editores de busca, editores de estatísticas, editores de projetos, editores de links, editores de comunidades, editores de rede e conversação, editores de tags, editores de mashup, editores de qualidade Web e editores de Internet (como tema).

Via Ponto Media

ARQUIVO DIGITAL
Veja :: A metamorfose de uma revista

Ótima notícia para aqueles que estudam o jornalismo: está no ar o acervo digital da revista Veja, com a íntegra de todos os exemplares da revista desde 1968, quando foi criada. O investimento no projeto de digitalização foi de R$ 3 milhões.


É interessante navegar pelos exemplares antigos (década de 90 para trás) da revista e notar a metamorfose sofrida por ela na última década, quando se tornou uma espécie de manifesto anti-esquerda travestido de jornalismo e alimentado pela intransigência.

Vale comparar, por exemplo, duas matérias de capa sobre o mesmo tema: o mito em torno de Che Guevara. A mais recente, publicada em outubro de 2007: Che - A farsa do herói. Verdades incovenientes sobre o mito do guerrilheiro altruísta, quarenta anos depois de sua morte. A mais antiga, de julho de 1997: A ressurreição de Che Guevara.

Enquanto a matéria de 2007 dedica-se a enquadrar Che Guevara na categoria de mito do mal e da patetice, mesmo que para isso seja preciso passar por cima de princípios do jornalismo, a de 1997 pode ser chamada de reportagem e contém parágrafos que seriam simplesmente impensáveis na Veja de hoje. Traz, por exemplo, a seguinte legenda para um conjunto de fotos:

James Dean, Jimi Hendrix e John Lennon também são ícones da juventude - a vida deles se encerrou abruptamente, alimentando o mito. Che Guevara morreu por suas idéias, aos 39 anos. Parecia ter menos e se comportava como se tivesse a metade. Deixa um legado universal de solidariedade e desprendimento, captado com avidez pelos combatentes de Chiapas, no México, ou pelo Movimento dos Sem-Terra, no Brasil. Desprezou as armadilhas do poder, acreditou que moveria montanhas e, ao morrer, se tornou imortal.


Já a matéria de 2007 traz a seguinte abertura:

Há quarenta anos morria o homem e nascia a farsa - "Não disparem. Sou Che. Valho mais vivo do que morto." Há quarenta anos, no dia 8 de outubro de 1967, essa frase foi gritada por um guerrilheiro maltrapilho e sujo metido em uma grota nos confins da Bolívia. Nunca mais foi lembrada.* Seu esquecimento deve-se ao fato de que o pedido de misericórdia, o apelo desesperado pela própria vida e o reconhecimento sem disfarce da derrota não combinam com a aura mitológica criada em torno de tudo o que se refere à vida e à morte de Ernesto Guevara Lynch de la Serna, argentino de Rosário, o Che, que antes, para os companheiros, era apenas "el chancho", o porco, porque não gostava de banho e "tinha cheiro de rim fervido".

*A frase foi lembrada pela própria Veja, na reportagem de 1997, mas não com o mesmo uso de 2007.

Dez anos separam duas matérias de capa de Veja sobre o mito de Che Guevara. Mesmo nome, revistas diferentes.

ANÁLISE
Do jornalismo e de como as coisas se chamam

Finalmente! Achei um texto que problematiza a "crise". Não os desaquecimento econômico provocado pelas tais hipotecas nos EUA, mas a palavrinha tão adorada pelos noticiários. "Crise". Submanchete no UOL: Presidente Lula pede que bancos baixem juros para amenizar efeitos da crise. Título no canal de economia do Terra: Medidas anticrise já passam dos R$ 250 bilhões no Brasil. Chamada da Época Negócios no G1: Crise foi parar até nas camisetas.

Em inglês, "crisis", que é também o termo que os veículos americanos têm usado com maior freqüência. O texto que problematiza a questão: No Question We're in a Financial Pickle. What Do We Call It?, de Brian Stelter, no site no The New York Times (sim - ele, de novo).

Traduzindo livremente alguns trechos:

"Os veículos noticiosos sempre sentem a necessidade de nomear tudo", disse Jonathan Wald, vice-presidente sênior de negócios jornalísticos da CNBC. "Se não está rotulado, não existe na televisão moderna". Ele observou que os canais de televisão na Índia rapidamente rotularam os ataques do mês passado em Mumbai como "Guerra em Mumbai" e "11 de setembro da Índia".

(...) atribuir um nome e um "logotipo" para um acontecimento corre o risco de desvalorizá-lo [talvez "pervertê-lo" seja um termo melhor] na mente do público. A tendência de se chamar todo escândalo potencial de "gate", em alusão a Watergate (...) "tende a desvalorizá-lo", disse Wald.

Além disso, o termo utilizado para designar algum fato sempre acaba exercendo influência sobre a percepção pública e, por extensão, sobre a própria cobertura jornalística. Nada muito complexo: dê-me uns minutinhos num canal de TV, digo que vivemos uma crise, repito e repito isso, e convenço as pessoas e a mim mesma de que, sim, estamos em crise. Então, que vivamos a crise.

Pois uma das poucas coisas que aprendi sobre economia é que seus fatos são, em grande parte, psicológicos. O "mercado" fica nervoso, sente alívio e ansiedade, às vezes levanta de mau humor e derruba as bolsas.

[abre momento de auto-crítica] Talvez eu esteja desvirtuando as coisas. Afinal, jornalismo é linguagem. E, como já ouvi de vários palestrantes e "mestres" jornalistas, simplesmente não dá para ficar problematizando e investigando os múltiplos sentidos das palavras que aparecem aos milhares no papel ou na tela. [fecha momento de auto-crítica]

Ok, ok. Mas que é um assunto interessante, isso é. E não é um caso isolado. Há algumas expessões cunhadas pelos jornalistas que cintilam e imploram por um olhar mais crítico.

Alguém aí se lembra do "caos aéreo"? Expressão que foi tão usada, tão repetidamente, que se tornou verdade em si mesma. Até hoje corremos o risco de cair novamente nesse "caos". Basta o tempo fechar, os vôos atrasarem e as filas do check-in ficarem grandes. E envia-se um repórter para cobrir o "caos" in loco. Não chega nem perto do caos nosso de cada dia nos terminais de ônibus e estações de trem. Mas isso seria assunto para outro post.

MINI-CLIPPING
E no fantástico mundo das premiações...

(a) Prêmio Esso divulga vencedores de 2008 e (b) Pulitzer estende premiação para textos publicados na internet.

(a) Do Portal Imprensa, em 10/12/2008:


Matéria polêmica sobre a Igreja Universal rende Prêmio Esso a Elvira Lobato

Redação Portal IMPRENSA

A jornalista Elvira Lobato, repórter da Folha de S.Paulo e autora da matéria "Universal chega aos 30 anos com império empresarial", que falava sobre os bens adquridos pela Igreja desde a sua fundação, foi a grande vencedora do "Prêmio Esso de Jornalismo 2008". A premiação da profissional ocorreu na última terça-feira (9), em evento realizado no Hotel Copacabana Palace, em São Paulo (SP). (...) texto completo, com lista dos premiados


(b) Do Blog do GJOL, em 09/12/2008:


Pulitzer expande premiações

O Pulitzer Prizer, a principal premiação jornalística dos Estados Unidos, anunciou que vai expandir a sua premiação, incluindo a partir de agora, textos publicados na internet. As submissões (...) serão incluídas nas 14 categorias que a organização já premia. (...) texto completo

INOVAÇÕES
A home page alternativa do NYTimes.com

O site do jornal The New York Times está levando a sério a "tendência" de se publicar links para conteúdos de outros veículos. Agora, os usuários do NYTimes.com têm a opção de visualizar o site com uma home page alternativa. Ela mantém os mesmos títulos da home tradicional, mas acrescenta pequenas caixas logo abaixo das chamadas, com links para matérias sobre o assunto publicadas por outros sites e blogs.

As listas de links na nova home page são alimentadas pelo agregador Blogrunner, da The Times Company, que cria os rankings com base na popularidade das páginas na Web.

Para mudar da home page tradicional para a alternativa, o usuário precisa acessar o site e clicar no botão "Try our Extra Home Page", no canto superior direito da página, logo depois do nome do veículo e da data:



Aberta a home page alternativa, o usuário tem a opção de voltar à home tradicional clicando no botão "Switch back".

Chamadas na home page convencional do NYTimes.com:

E na home alternativa, com listas de links para outros veículos na Web:


Para a vice-presidente e chefe de publicidade do The New York Times Media Group, a criação da nova home é uma forma de responder às demandas da audiência por "interatividade, comunidade, multimídia, notícias e informação", segundo texto de divulgação distribuído pela empresa. Com isso, o site se tornaria mais atrativo para anunciantes - o que seria providencial, já que o NYT pretende hipotecar o edifício de sua sede para pagar uma dívida que chega a U$ 1 bilhão.

EUA
Veículo local, apuração (muito) remota

Começou com o setor de call centers. Ao ligar para o fabricante para tirar uma dúvida sobre algum produto, um consumidor norte-americano tem grandes chances de falar com um indiano, trabalhando na Índia, com um inglês praticamente perfeito e um salário muito menor do que o de um sobrinho do Tio Sam. É o tal do outsourcing.

Agora, esse tipo de terceirização chega ao jornalismo. O site californiano Pasadena Now trocou seus repórteres americanos por indianos, que "apuram" suas matérias por telefone e e-mail - ou, simplemente, dão um "tapa" nos releases recebidos (prática muito comum, a julgar pelo conteúdo do site). Enquanto os jornalistas dipensados recebiam em torno de U$ 2.800,00 por mês, os indianos recebem U$ 7,50 por mil palavras.

Mais detalhes, em português, no post Outsourcing de jornalistas pela web, no blog Internet Buzz, de Sandra Carvalho.

E, em inglês, na coluna de Maureen Dowd, no The New York Times.

Home page do site Pasadena Now - indianos no lugar de americanos, e releases no lugar de reportagens

ESTUDO
O crescimento da blogosfera em países da AL

A agência americana The Jeffrey Group realizou um estudo sobre o desenvolvimento da blogosfera em países da América Latina. Foram analisados 168 dos blogs especializados mais acessados no Brasil, na Argentina, no México e na Venezuela. Seus autores foram entrevistados pela antropóloga Soledad Laborde, pesquisadora da agência, afirma texto de divulgação publicado pelo The Jeffrey Group [press-release; pdf; 3 páginas].

Segundo a agência, merecem destaque as seguintes conclusões do estudo:

  • Os blogueiros se desenvolveram frente a uma onda de formadores de opinião e influenciadores que atingem jovens, consumidores potenciais e uma nova geração de formadores de opinião. Eles são um meio de interação com o mercado.
  • Jornalistas são autores de 61 dos 168 blogs pesquisados nos quatro países estudados pelo The Jeffrey Group. A maioria justificou que a liberdade editorial é o motivo principal de manter um blog.
  • A cobertura da mídia na América Latina entre blogs e blogueiros é difundida. Entre as centenas de artigos revisados durante seis meses, o The Jeffrey Group encontrou 11.572 menções de blogs e blogueiros nos quatro países estudados.
  • De acordo com o Target Group Index (TGI), um estudo de mercado global com fonte única de pesquisa, foi estimado que existiam 9,1 milhões de blogueiros na América Latina em 2007, ou 7% dos usuários de internet latino-americanos. Esta média é apenas um pouco inferior à média dos internautas dos Estados Unidos: 8% deles são blogueiros.
  • Também, de acordo com o TGI, o uso da Internet na América Latina cresceu 590% entre 2000 e 2007, o dobro da média mundial.
Tópicos copiados do press-release do The Jeffrey Group

Apresentação e análise dos resultados do estudo:
A blogosfera na América Latina: Uma análise regional da influência web

[pdf; 16 páginas]