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FUTURO DA PROFISSÃO
Dez coisas que um jornalista pode ser quando crescer

Dizem por aí que os jornalistas estão com os dias contados, que os blogs e o jornalismo cidadão/colaborativo/não-profissional vão dominar o mundo. Então, jornalistas, seus seres defasados, inventem outras coisas para fazer!

Já pensei em usar o diploma para prestar concurso público e virar motorista de metrô ou fiscal de reservas ambientais. Mas esta lista, criada pelo blog sueco Mindpark e traduzida para o inglês pelo blog Beta Tales, apresenta funções muito mais condizentes com o que um jornalista pode fazer, utilizando seus conhecimentos (?) de internet, novas tecnologias, redes sociais, medição de audiência...

Em tradução rápida para a língua de Saramago, num futuro não tão distante os jornalistas podem ser: editores de busca, editores de estatísticas, editores de projetos, editores de links, editores de comunidades, editores de rede e conversação, editores de tags, editores de mashup, editores de qualidade Web e editores de Internet (como tema).

Via Ponto Media

JORNALISMO CIENTÍFICO
O reinado do press-release

Jornalistas e veículos que cobrem ciência estão sofrendo de um problema de dependência. A substância viciante: press-releases, textos produzidos por assessorias de imprensa cada vez mais próximos do que se espera de uma matéria ou de um texto final. Um prato cheio para as redações com poucos funcionários e um bolo enorme de trabalho.

O tema é abordado pela jornalista Cristine Russell no texto Science Reporting by Press Release - An old problem grows worse in the digital age, publicado no site da revista Columbia Journalism Review. É a velha história: na era da internet, a periodicidade dos veículos se dissolve; é preciso atualizar as páginas minuto a minuto; há pouca gente para isso; copia-se o release, afinal, que está bem feitinho. Ufa! Conteúdo no ar.

Ou, então, o redator reescreve um pouco o texto e não entrevista ninguém. Pega algumas aspas do release mesmo. E agora? Coloca um "segundo texto divulgado pela assessoria de comunicação do instituto X"? Ahn... Pode pegar mal. Que problema há em deixar as aspas como estão? Que mal haverá se não estiver claro que eu não entrevistei o dono das aspas? Deixa assim.

Segundo Cristine e outros críticos ouvidos por ela, há, sim, um problema. Um problema ético, pois ao omitir a fonte do leitor, o jornalista toma o trabalho feito pela assessoria para si. E quem garante que a fonte disse aquilo mesmo? O assessor pode até ser uma pessoa muito confiável, mas o princípio do jornalismo ainda é a checagem - cuja motivação é a desconfiança constante.

Mas quando há muito trabalho para pouca gente, é difícil mesmo apurar tudo por conta própria. E falar continua sendo muito fácil...

APURAÇÃO
Adolescentes como fontes de informação

Quando é legítimo recorrer a menores de idade como fontes de informação para uma matéria? Quando é inoportuno? Quando é irresponsável?

O tema é polêmico e, infelizmente, não existem muitas respostas prontas, como mostra o texto Reading, writing and reporters, publicado hoje (17) pelo ombudsman do The New York Times. Quando a repórter Jodi Kantor, do veículo nova-iorquino, enviou mensagens no Facebook para adolescentes de 16 e 17 anos pedindo "dicas" para um perfil de Cindy McCain, muitos pais ficaram revoltados.

Kantor argumenta que ela não estava solicitando declarações dos adolescentes, mas apenas pedindo que eles indicassem pessoas que pudessem falar sobre Cindy - talvez os pais de alunos que freqüentassem a mesma escola que a filha do casal McCain. Mesmo assim, a opinião do ombudsman, Clark Hoyt, é de que Kantor errou ao enviar as mensagens. "Eu não as enviaria. Os repórteres precisam ser especialmente cuidadosos em recorrer a menores sem o conhecimento de seus pais. Quando se trata de notícia quente [breaking news], isso nem sempre é possível, mas não era o caso", escreve.

Em outra situação descrita por Hoyt, um repórter do NYT conseguiu, quase acidentalmente, o depoimento de um garoto de doze anos que havia sido testemunha de um crime cometido por policiais. O pai do garoto, segunda testemunha do caso, recusou-se a falar, mas não fez objeções à conversa do jornalista com seu filho.

A equipe do jornal verificou as informações com uma fonte na polícia. Decidiu, então, usar apenas o que foi confirmado e não dar o nome do garoto na matéria. "Eu teria feito o mesmo", declara o ombudsman. "O menino era uma testemunha independente em um acontecimento de inegável interesse público. Embora o pai não tenha dado permissão para falar com ele, os editores se certificaram de que ele sabia que seu filho havia sido entrevistado e de que ele não fizera objeções a isso."

Segundo Hoyt, é importante sempre ter em mente que crianças e adolescente não têm experiência de vida suficiente para entender o que pode acontecer quando falam a um jornalista.

Guia online
O site da Rede Andi Brasil disponibiliza um guia para jornalistas que cobrem temas envolvendo crianças e adolescentes. O material aborda algumas questões jurídicas e orienta sobre uso de imagens, necessidade de permissão e terminologia adequada.

REDES SOCIAIS
Site congrega pesquisadores do jornalismo

Dando uma olhada nos sites listados no meu Google Reader, descubro que Paul Bradshaw criou uma rede social direcionada a pesquisadores do jornalismo e acadêmicos da área: o Journalism Research.

E clicando aqui e ali, eu, newbie que sou, também descubro que existe um site em que os internautas podem criar sua própria rede social: www.ning.com (justamente o site usado por Bradshaw em sua referida empreitada).


E pensando um pouquinho, chego à conclusão (provavelmente atrasada) de que é impossível estar em todos os lugares interessantes da Web. Já perdi a conta de cadastros que fiz em sites por aí, cada um com uma proposta original e promissora, mas que acabam esquecidos em meio a tanta coisa.

Algumas confissões: não tenho paciência para Twitter, desencanei do MySpace, raramente entro no Facebook, pouco atualizo meu Orkut, há tempos não ouço a Last.fm e já perdi a senha do meu login no NewsCred (provavelmente ainda recuperável em algum e-mail perdido no infinito de mensagens do Gmail). Ah, meu lixo digital...

PESQUISA
Como os blogs influenciam a prática jornalística

O jornalista norte-americano Paul Bradshaw publicou no Online Journalism Blog os resultados de um levantamento sobre a percepção dos jornalistas em relação ao uso dos blogs. Links para os resultados e análises [em inglês]:

pt 1. Context and methodology
200 jornalistas blogueiros, de 30 países, responderam à pesquisa de Bradshaw. Mais da metade é da América do Norte. Cerca de 50% atua no jornalismo impresso; cerca de um terço, no meio on-line.

pt 2. Blogs and news ideas: "The canary in the mine"

"There is evidence of an increasing disintermediation of the editor’s role - understandably, as the editorial role of determining the reader’s identity and needs is undermined when writers, through their blogs, have a closer, more immediate and reliable access to that information."

pt 3. Blogs and story research: "We swapped info"
"As highlighted previously, blogging journalists report finding it easier to find sources who don’t come from a government agency or professional association, and to keep up with events they are not participating in.
(...)
But for some the pressure to publish meant more reliance on rumours, and less rigorous research, with the onus placed on blog readers to clarify and fact-check."

pt 4. Blogs and news production: "I think in hyperlinks, even when working in print"
"Perhaps the most significant change was in the way that blogs provided a platform for stories or detail that would otherwise not make the print or broadcast version at all. Respondents talked of augmenting coverage that 'would otherwise fall in the cracks', of pieces that were interesting, but wouldn’t merit space in the paper, or that use elements that “don’t necessarily fit into the rigid lengths of radio pieces.'"

pt 5. Post-publication: "You've got to be ready for that conversation"
"The ability to enter into correspondence with users, to fix errors and post updates were frequently identified as changing journalistic work, turning on its head Lowrey’s sugestion that bloggers 'often emphasise immediacy and opinion at the expense of accuracy' (2006) and that journalism would protect itself by focusing on editing; responses suggest that, conversely, journalists are relying on commenters to contribute to the editing process."

FUTURO DA PROFISSÃO
Um mundo de marketing? Um mundo de frilas?

Um mundo mais online do que o atual, em que os jornalistas terão de trabalhar para vários veículos. Um mundo de marketing pessoal e de frilas, sejam eles fixos ou eventuais. Segundo o painel de discussão The Changing World of Journalism, realizado neste mês na Universidade Maryland-College Park (EUA), esse é um cenário futuro bem provável para a profissão.

Os jornalistas terão de "atuar em um mundo no qual terão de fazer contínuo marketing de si mesmos para múltiplos veículos", escreve o jornalista John Kirch no artigo A look into journalism's future (Examiner.com), que resume as principais idéias apresentadas no painel. Nesse contexto, o jornalista precisará saber criar e cultivar sua própria marca pessoal. Para a jornalista Amar Bakshi, repórter do WashingtonPost.com, a internet é um ótimo espaço para isso.

Futuro do jornalismo impresso
Segundo Leslie Walker, professora visitante da Universidade de Maryland e participante do painel, os jornais impressos tendem a deixar de ser fontes diárias de notícias e passarão a se concentrar em análises, ao estilo do que é feito por revistas semanais.

A tendência é de que as notícias diárias e mais quentes sejam veiculadas cada vez mais na internet. Com isso, é provável que os impressos mantenham suas edições de domingo, "especiais", e reduzam - ou interrompam - a circulação em dias de semana.