Ótima notícia para aqueles que estudam o jornalismo: está no ar o acervo digital da revista Veja, com a íntegra de todos os exemplares da revista desde 1968, quando foi criada. O investimento no projeto de digitalização foi de R$ 3 milhões.
É interessante navegar pelos exemplares antigos (década de 90 para trás) da revista e notar a metamorfose sofrida por ela na última década, quando se tornou uma espécie de manifesto anti-esquerda travestido de jornalismo e alimentado pela intransigência.
Vale comparar, por exemplo, duas matérias de capa sobre o mesmo tema: o mito em torno de Che Guevara. A mais recente, publicada em outubro de 2007: Che - A farsa do herói. Verdades incovenientes sobre o mito do guerrilheiro altruísta, quarenta anos depois de sua morte. A mais antiga, de julho de 1997: A ressurreição de Che Guevara.
Enquanto a matéria de 2007 dedica-se a enquadrar Che Guevara na categoria de mito do mal e da patetice, mesmo que para isso seja preciso passar por cima de princípios do jornalismo, a de 1997 pode ser chamada de reportagem e contém parágrafos que seriam simplesmente impensáveis na Veja de hoje. Traz, por exemplo, a seguinte legenda para um conjunto de fotos:
James Dean, Jimi Hendrix e John Lennon também são ícones da juventude - a vida deles se encerrou abruptamente, alimentando o mito. Che Guevara morreu por suas idéias, aos 39 anos. Parecia ter menos e se comportava como se tivesse a metade. Deixa um legado universal de solidariedade e desprendimento, captado com avidez pelos combatentes de Chiapas, no México, ou pelo Movimento dos Sem-Terra, no Brasil. Desprezou as armadilhas do poder, acreditou que moveria montanhas e, ao morrer, se tornou imortal.
Já a matéria de 2007 traz a seguinte abertura:
Há quarenta anos morria o homem e nascia a farsa - "Não disparem. Sou Che. Valho mais vivo do que morto." Há quarenta anos, no dia 8 de outubro de 1967, essa frase foi gritada por um guerrilheiro maltrapilho e sujo metido em uma grota nos confins da Bolívia. Nunca mais foi lembrada.* Seu esquecimento deve-se ao fato de que o pedido de misericórdia, o apelo desesperado pela própria vida e o reconhecimento sem disfarce da derrota não combinam com a aura mitológica criada em torno de tudo o que se refere à vida e à morte de Ernesto Guevara Lynch de la Serna, argentino de Rosário, o Che, que antes, para os companheiros, era apenas "el chancho", o porco, porque não gostava de banho e "tinha cheiro de rim fervido".
*A frase foi lembrada pela própria Veja, na reportagem de 1997, mas não com o mesmo uso de 2007.

2 comentários:
16 de dezembro de 2008 às 13:46
Muito boa essa comparação das duas reportagens. Essa guinada radical à direita da Veja merece muitos estudos. Será que tem volta? A Veja não vai deixar de ser de direita, lógico, mas não poderia deixar de ser direita raivosa?
16 de dezembro de 2008 às 14:37
Acho que uma mudança é muito pouco provável. Deve ser um negócio bem lucrativo servir à direita que compra a idéia de "Veja, indispensável para o país que queremos ser" (que medo!). Fora que o "patrimônio" ideológico da revista parece estar muito bem guardado por editores que mandam em tudo e repórteres/redatores que (a) ou compram as idéias da revista, (b) ou não se importam muito em ter suas matérias "adaptadas" à linha editorial, (c) ou se esforçam para acreditar e argumentar que as críticas à revista são delírios de quem segue uma "modinha" de bater na Veja.
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