Finalmente! Achei um texto que problematiza a "crise". Não os desaquecimento econômico provocado pelas tais hipotecas nos EUA, mas a palavrinha tão adorada pelos noticiários. "Crise". Submanchete no UOL: Presidente Lula pede que bancos baixem juros para amenizar efeitos da crise. Título no canal de economia do Terra: Medidas anticrise já passam dos R$ 250 bilhões no Brasil. Chamada da Época Negócios no G1: Crise foi parar até nas camisetas.
Em inglês, "crisis", que é também o termo que os veículos americanos têm usado com maior freqüência. O texto que problematiza a questão: No Question We're in a Financial Pickle. What Do We Call It?, de Brian Stelter, no site no The New York Times (sim - ele, de novo).
Traduzindo livremente alguns trechos:
"Os veículos noticiosos sempre sentem a necessidade de nomear tudo", disse Jonathan Wald, vice-presidente sênior de negócios jornalísticos da CNBC. "Se não está rotulado, não existe na televisão moderna". Ele observou que os canais de televisão na Índia rapidamente rotularam os ataques do mês passado em Mumbai como "Guerra em Mumbai" e "11 de setembro da Índia".
(...) atribuir um nome e um "logotipo" para um acontecimento corre o risco de desvalorizá-lo [talvez "pervertê-lo" seja um termo melhor] na mente do público. A tendência de se chamar todo escândalo potencial de "gate", em alusão a Watergate (...) "tende a desvalorizá-lo", disse Wald.
Além disso, o termo utilizado para designar algum fato sempre acaba exercendo influência sobre a percepção pública e, por extensão, sobre a própria cobertura jornalística. Nada muito complexo: dê-me uns minutinhos num canal de TV, digo que vivemos uma crise, repito e repito isso, e convenço as pessoas e a mim mesma de que, sim, estamos em crise. Então, que vivamos a crise.
Pois uma das poucas coisas que aprendi sobre economia é que seus fatos são, em grande parte, psicológicos. O "mercado" fica nervoso, sente alívio e ansiedade, às vezes levanta de mau humor e derruba as bolsas.
Ok, ok. Mas que é um assunto interessante, isso é. E não é um caso isolado. Há algumas expessões cunhadas pelos jornalistas que cintilam e imploram por um olhar mais crítico.
Alguém aí se lembra do "caos aéreo"? Expressão que foi tão usada, tão repetidamente, que se tornou verdade em si mesma. Até hoje corremos o risco de cair novamente nesse "caos". Basta o tempo fechar, os vôos atrasarem e as filas do check-in ficarem grandes. E envia-se um repórter para cobrir o "caos" in loco. Não chega nem perto do caos nosso de cada dia nos terminais de ônibus e estações de trem. Mas isso seria assunto para outro post.
2 comentários:
12 de dezembro de 2008 às 15:36
Faz sentido a idéia de repetir e repetir um termo atribuindo um nome e um logotipo a um acontecimento.
Mas não acho que seja um problema, nem que banalize o assunto. Essa rotulação cumpre um papel, o de separar o tema a matéria das outras do jornal/revista/site. É quase criar uma subeditoriazinha para atrair um nicho de leitores.
Se o cara quer ler sobre aquilo, lê, se não quiser, não perde tempo (time is money) e pula para outra matéria.
16 de dezembro de 2008 às 14:43
Claro. Nem todas as "rotulações" são um problema. Criar um chapéu do tipo "Mercado financeiro" ou do tipo "Maranhão" ajuda a organizar o conteúdo e orientar o leitor (e seres humanos precisam disso). Mas há alguns casos que merecem mais crítica, sim; o "caos aéreo", por exemplo, ajudou a disseminar uma certa visão (que, acho, tem seus equívocos) e influenciou toda a cobertura jornalística (que teve, sim, seus momentos de exagero).
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